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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Epopéia de Gilgamesh, a origem do Gênesis


Epopéia de Gilgamesh, a origem do Gênesis



A originalidade nunca foi característica das grandes religiões atuais. Elas estão sempre se adaptando naquilo que é politicamente conveniente para elas em determinadas épocas, ou até mesmo se misturando umas com as outras, resultando numa verdadeira salada de crenças. Como todo fenômeno irracional e emergente, o resultado é essa grande confusão de religiões e práticas rituais, muitas delas divergentes, nos dias de hoje. Até aí tudo bem, o problema é quando as pessoas são doutrinadas para pensar que tais crenças existiram desde sempre, ou que elas são "únicas" e "originais", ganhando com isso um sentido de importância "sobrenatural" ou "divino". Por isso que quase ninguém ouviu falar da Epopéia de Gilgamesh, a mais antiga obra literária da humanidade, que deu origem à inúmeros textos religiosos ou os influenciou, incluindo o Gênesis bíblico. E quase ninguém sabe que os pontos em comum entre estas crenças não são apenas coincidência, mas tem na verdade uma origem comum.




Até meados do século XIX, tudo o que se sabia sobre a antiga Mesopotâmia - hoje Iraque - e os grandes impérios e civilizações que ali existiram, era o que estava escrito na Bíblia, que por sinal dá informações escassas e pouco reveladoras a respeito, já que ela tem mais interesse na história - contada de forma mais ou menos mitológica - do povo hebreu. Foi quando arqueólogos encontraram a biblioteca de Assurbanipal, imperador assírio que viveu há mais de 2600 anos, na antiga cidade de Nínive. Lá haviam tábuas de argila contendo escrita com sinais que mais tarde foi batizada de cuneiforme. Com isso começou uma "corrida do ouro" para encontrar evidências arqueológicas dos relatos bíblicos na região, revelando nas escavações, reínas de cidades-estado como Uruk, Ur e Nipur, que junto com outras foram o berço da nossa civilização atual.


As tábuas encontradas na biblioteca em Nínive foram traduzidas pela primeira vez em 1872 pelo arqueólogo britânico George Smith, revelando ao mundo um trecho da Epopéia de Gilgamesh; o relato de um Dilúvio global, muito anterior ao de Noé e provavelmente "plagiado" por este, por ter várias similaridades. Esta descoberta abalou toda a comunidade científica e religiosa do século XIX, laicizando e modificando completamente o método de pesquisa dos arqueólogos e historiadores, e, principalmente, abrindo espaço para a honestidade e falseabilidade científica, pelo questionamento que colocaria à prova a veracidade histórica dos textos bíblicos. Particularmente nos últimos quarenta anos, tem sido realizadas muitas discussões acerca do que é mitológico e histórico nos relatos do Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia que tratam da criação do mundo e a origem do Homem e seus primeiros passos na Terra, na origem do povo israelita e das próprias escrituras sagradas do Cristianismo, tudo graças às descobertas feitas no século XIX.


Tábua número IX da Epopéia de Gilgamesh, contendo a história do Dilúvio, em língua acádia

A Epopéia de Gilgamesh é um grande compilado de poemas que teria sido escrito há mais de 4000 anos. Aliás, ela talvez seja derivada de tradições ainda mais antigas, principalmente a narração do Dilúvio, que teria se baseado no antigo épico acádio Atrahasis, que por sinal teria se originado de tradições de tempos pré-históricos. Gilgamesh, foi um rei semi-lendário e herói, filho de um "demônio" ou "fantasma", que governou o povo sumério por 126 anos, e pelos seus feitos foi considerado o maior antecessor dos reis sumérios e depois venerado como um deus pelos antigos sumérios e acádios. Historicamente, teria sido um monarca do fim do segundo período dinástico da Suméria, há 4500 anos.


A Epopéia narra em grande parte a relação de Gilgamesh com seu amigo Enkidu, um homem selvagem criado pelos deuses como um equivalente seu, para evitar que Gilgamesh oprimisse o povo da cidade de Uruk, que governava. Enkidu luta com Gilgamesh e o derrota, e este, admirado, torna-se seu aliado e companheiro de aventuras. Juntos realizam diversas missões, que descontentam os deuses, derrotando monstros enviados por estes, como Humbaba. A parte final do épico é quando Enkidu morre, e transtornado, Gilgamesh vai em busca da imortalidade, até que Utinapishtim, o herói imortal do dilúvio (adaptado pelo Noé bíblico), lhe diz que jamais a encontraria. No entanto, lhe transmite vários ensinamentos sobre cultos perdidos, que Gilgamesh traz de volta para Uruk. Gilgamesh também foi notório pelas diversas construções que levantou na cidade.


O mais curioso, porém, na narrativa do poema, são as semelhanças mitológicas dos mitos da criação e do dilúvio com os da Bíblia. Enkidu é criado inocente, sem a malícia do Homem (exatamente como Adão e Eva), e pastava e vivia com os animais da floresta. Gilgamesh envia uma prostituta do templo da deusa Ishtar para seduzí-lo (igual a serpente faz com Eva, ao oferecer-lhe o fruto proibido) e trazê-lo para Uruk, com sucesso. Enkidu perdeu sua inocência e seu poder selvagem, tornando-se conhecedor do bem e do mal. Nesta comparação com a tentação do Eden, podemos identificar as idéias ao invés dos fatos. A prostituta sagrada, condenada também em outros livros da Bíblia, pode ser encarada como o fruto proibido, a serpente e a própria Eva, que tem o poder de seduzir o homem e tirar sua inocência com falsas promessas.


Representação de Gilgamesh


Quando Gilgamesh encontra Utinapishtim, este narra-lhe como conquistou a imortalidade; Enlil, deus da terra e do mar, desgostoso da humanidade, decide destruí-la com um dilúvio. No entanto, Ea, deus da água doce e da sabedoria, avisa Utinapishtim das intenções de Enlil e lhe instrui a construir uma ARCA onde ele colocaria toda sua família, artesãos e animais que existiam, que se salvariam do dilúvio. Enlil envia uma grande tempestade que inunda toda a Terra por seis dias e seis noites, e matou todas as pessoas que não estavam na Arca. Ao fim da chuva, Utinapishtim soltou uma pomba, depois uma andorinha, depois um corvo, para ver se eles achavam terra seca e firme após a inundação. Já em terra firme, ele faz sacrifícios a Ea, que lhe salvara do dilúvio. Não precisa nem falar das semelhanças dessa história com a do dilúvio bíblico... Furioso com Ea, Enlil decide transformar Utinapishtim em um imortal, para que a maldição de que nenhum mortal sobreviveria ao dilúvio que ele mandou se cumpra.


Utinapishtim diz a Gilgamesh que ele nunca poderá se tornar imortal. Frustrado, ele prepara-se para voltar a Uruk, mas no caminho a esposa de Utinapishtim vai ao encontro dele e diz que há uma planta mágica no fundo do mar, que, se ele comer, o tornará imortal (mais uma vez tem uma mulher/Eva/serpente/prostituta seduzindo um homem na história...). Arriscando a própria vida, o herói consegue obter a planta, mas por compaixão decide repartí-la com o povo de Uruk. No caminho para casa, uma serpente (outra !!!) marinha rouba-lhe a planta, fazendo-o perder para sempre o segredo da imortalidade, o que foi uma baita sacanagem com o coitado do herói.


No livro de Gênesis não há semelhanças apenas com a Epopéia de Gilgamesh, mas ainda com o Mito de Dilmum, também da Suméria, onde o deus Enki e a deusa Nintu habitavam sozinhos num mundo de delícias, bem semelhante ao Jardim do Éden. Portanto, amiguinho, se você é religioso, principalmente se for cristão, nunca critique outras religiões ou diga "dessa fonte nunca beberei", pois boa parte daquilo que você acredita certamente é chupação, ctrl + c e ctrl + v de crenças pagãs e civilizações muito mais antigas. Pois, como disse Fernand Braudel, “O passado das civilizações nada mais é que a história dos empréstimos que elas fizeram umas às outras ao longo dos séculos ...”


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